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A coragem de bancar as próprias escolhas: o preço e o valor de ser verdadeiro consigo

Foto do escritor: Ká Minatto
Ká Minatto
4 de set.
4 min de leitura
Fazer as próprias escolhas com coragem permite vivenciar a caminhada com maior valor existencial, independentemente do preço a ser pago.
Fazer as próprias escolhas com coragem permite vivenciar a caminhada com maior valor existencial, independentemente do preço a ser pago.

Pertencimento e validação são necessidades do ego, intimamente ligadas ao reconhecimento da nossa dignidade e à nossa própria sobrevivência. O ser humano precisa pertencer para se sentir visto, amado e parte de algo maior.


Essa busca se inicia muito cedo, de forma totalmente inconsciente. Ser aceito por um grupo garante proteção e segurança contra o frio do isolamento.


A questão, contudo, não é o ato de pertencer, mas o quanto nos mutilamos para caber em determinados espaços. Muitas vezes, passamos por cima de quem ralmente somos em essência, adotando posturas que originalmente jamais teríamos.


Encontrar pessoas com os mesmos interesses não é difícil. O verdadeiro desafio é estar inserida(o) junto em um ciclo de pessoas com gostos similares, mas com posturas e visão de vida completamente opostas à nossa. É essa dinâmica que passa a exigir uma adequação forçada, nos obrigando a vestir um personagem para agradar ou sermos aceitos.


A vontade de validação é genuína, mas corromper a nossa essência e o modo como pensamos e agimos é uma autoviolação.


Quantas vezes, ao longo da vida, você se pegou vestindo roupas ou adotando estilos de comportamento que não lhe cabiam? Quantos vezes, durante a caminhada, você pronunciou um "sim" mecânico apenas para não desagradar, mas sentiu um nó amargo na garganta por trair o que realmente queria fazer?


Eu já estive nessa posição algumas vezes, principalmente na minha adolescência. Era doloroso dizer não, e eu acaba cedendo repetidamente para tentar agradar os outros.


Esse padrão me acompanhou por um bom tempo e ecoou em diversas áreas da minha vida. Uma abordagem mais profunda sobre esse assunto trarei no meu novo livro, no qual compartilharei questões pessoais e existenciais, entregando chaves e reflexões para uma mudança genuína no modo de conduzir os dias com mais leveza e inteligência.


Dizer sim quando a mente e o corpo gritam não é um dos maiores atos de traição que podemos cometer contra a nossa própria história. Com o passar do tempo, é inevitável que as rachaduras apareçam e a indagação sobre quem realmente somos venha à tona. Ninguém consegue sustentar o que não é por muito tempo; uma hora a conta chega, e o deconforto interno cobra o seu preço.


Ao amadurecermos e nos conhecermos melhor, torna-se nítida a existência desconexa; percebemos a agenda e as decisões sendo guiadas pela régua alheia, e não pelos nossos valores reais. É nesse exato instante que a chave começa a girar, abrindo as portas para a coragem de deixar para trás o que - e quem - não mais preenche, libertando padrões de comportamento que nunca foram nossos.


A autora Luciana Pianaro, na obra Coragem! Para Mudar, Transformar-se e Ser Você Mesmo, traduz com precisão esse cenário. Ela aponta que viver tentando atender às expectativas dos outros, perdendo-nos de quem somos, resulta em exaustão invisível e em uma traição crônica à própria individualidade. Para ela, apesar de estabelecer limites exigir lidar com o julgamento alheio, o valor e o resultado dessa escolha são a conquista da paz de espírito e a autoria da própria história.


Precisamos compreender que a opinião dos outros e a forma deles de viver pertencem exclusivamente a eles. Não devem refletir quem somos, mas sim o universo de questões internas, projeções e frustrações de cada um.


No momento que nos tornamos o espelho de um grupo, perdemos o nosso próprio reflexo.


A palavra coragem vem do latim coraticum, derivada de cor ou cordis, que significa coração. Assim, agir com coragem, nada mais é do que agir com o coração. É caminhar de forma autônoma, sustentando o próprio modo de enxergar e vivenciar a vida, fazendo escolhas que se alinham com quem somos e agindo em consonância com as nossas verdades e valores.


A opinião e a forma de existir do outro não pode e nem deve determinar a nossa. Quando aprendemos a seguir a nossa intuição e nosso coração, compreendemos de forma muito lúcida que ser diferente do que esperam de nós - e leal a nós mesmos - tem uma valor absurdo, mesmo que o preço a se pago nos pareça caro no momento.


Diante dessa ruptura e dessa mudança de padrão, alguns grupos inevitavelmente ficam para trás. Pessoas próximas começam a se afastar, surgem as críticas disfarçadas, os julgamentos velados, os conselhos não solicitados e as preocupações excessivas alheias.


O lado fascinante da escolha de nos enxergamos é que, quanto mais nos aproximamos de quem realmente somos e nos apropriamos da realidade que queremos, menos o ruído externo ganha poder, até que chega o instante em que ele simplesmente deixa de importar.


O preço do afastamento de quem antes e do que antes nos prenchia pesa, sim. É um período doloroso pelo qual precisamos passar. Contudo, se comparado ao valor de sermos fiéis à nossa essência de ter uma vida alinhada com o que acreditamos, esse fardo acaba se tornando muito leve no final das contas.


Quando entendemos que podemos pertencer, ser vistos e respeitados em nossa individualidade, toda a perspectiva muda. Passam a nos acompanhar no trajeto apenas aqueles que realmente enxergam valor em quem somos - , e ter pessoas autênticas ao lado é algo que preço nenhum no mundo paga.


Escolher a si mesmo não é agoísmo, mas sim uma faxina mental necessária para a nossa libertação como indivíduos. O preço do posicionamento em tomarmos o nosso lugar no mundo pode até resultar em um caminhar solitário por um tempo ou em ter que lidar com olhares desconfiados e julgadores. Mas não existe liberdade maior do que sentar-se no próprio trono da existência sendo exatamente quem se é.


Bancar as próprias escolhas é entender que o jogo muda quando você decide que o seu valor e ser quem voce é são inegociáveis.


Você está pronta(o) para pagar o preço?





 
 
 

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